Blog do TaQ

ODF, OOXML, Microsoft, OpenOffice e Icaza

Publicado em FLOSS

Everybody loves Eric Raymond

Rapaz, eu vi essa tirinha hoje, sendo sarcástica com o fato do pessoal da ISO ter colocado o OOXML em procedimento acelerado, e não havia reparado no post do Miguel de Icaza citado no artigo, entitulado "The EU Prosecutors are Wrong"..

Quem me conhece há algum tempo sabe que eu não vou muito com as fuças do Icaza. Ele é uma pessoa muito inteligente, concordo, mas inteligência não significa que a pessoa vai usá-la para fins puramente altruístas, não significa ser "bonzinho" (ou mesmo algum outro termo que se eu usar aqui poderia arrumar rolo para o meu lado). Apesar de toda a sua história envolvido com o Open Source, eu acredito (é minha opinião, discordem se quiserem mas me permitam ter a MINHA opinião) que atualmente ele se encontra em campos meio nebulosos ... ele é o cara que disse isso aqui:

At the PDC we saw the latest ways in which Microsoft has pushed the operating system beyond its roots into an advanced operating system; far more than the universe of read(), write() and poll() that Linux developers usually think of as being "the OS."

No artigo citado, é claramente feita uma puxação de saco deslavada para o lado da Microsoft (tem uma seção chamada "Technical Merits of OOXML and ODF" mas no resto do artigo ele só fala dos méritos do OOXML!) e em alguns pontos praticamente até assina uma sentença de morte para o OpenOffice. Vamos dar uma percorrida no artigo, vou tomar a liberdade de não traduzir para que não venham me falar que fiz alguma indução de idéias erradas através do contéudo traduzido.

The EU Prosecutors are Wrong

Ele já começa afirmando categoricamente que os caras estão errados. Eu suspeito desse tipo de atitude, ainda mais em uma questão que dá muita discussão como essa. Você falar "minha cueca é azul" é uma afirmação categórica se você está olhando para a cor da sua cueca e ela realmente é azul. Vamos levar em conta aqui que você não está mentindo. Mas dizer "todos esses caras estão errados" em uma questão complexa como essa é uma afirmação forte, e, IMHO, incoerente, arrogante, parcial e divulgadora de idéias conturbadas, que fazem um bom estrago pelo fato de ele ser um formador de opinião.

And I think that the group is not only shooting themselves in the foot, they are shooting all of our collective open source feet.

Corrijam-me por favor se eu estiver errado, mas acredito que ele fala para uma parcela bem menos significativa das pessoas do Open Source hoje em dia do que alguns anos atrás. Não somente pelo lado corporativista - a RedHat é uma corporação mas fica esperta com alguns movimentos estranhos para o lado do Open Source - mas não dá para negar que tem algum tempero a mais no molho dele ultimamente.

For a few years, those of us advocating open source software have found an interesting niche to push open source: the government niche.

Aqui tem uma questão polêmica mas que gostaria de expor minha opinião. Eu realmente gostaria que o Open Source ficasse longe dos governos. Todo mundo sabe que de um jeito ou de outro isso pode ser usado para cunho político (vide todo o papo no mandato passado, algumas coisas evoluíram mas pelo papo teria que ser bem mais) e para ganhar muito, mas MUITO dinheiro de alguma forma. Eu acredito que a mudança tem que vir de baixo, ou seja, dos usuários primeiro. O Alex Hubner, do CFGigolô tem uma opinião bem ferrenha a respeito da imposição de Software Livre pelo governo, e não deixo de concordar com ele em alguns pontos. Seria uma mudança muito mais sólida se fosse uma coisa mais estruturada, deglutida, não enfiada guela abaixo. Enfim, governo é complicado, e se já estão mirando com tanta gana nisso, alguma coisa grande eles tem em vista.

Microsoft Office might have some features that we do not have.

Devem ser aquelas que obedecem o Princípio de Pareto: 80% delas somente 20% dos usuários usam. Ou trocando em miúdos: aquele monte de coisa que tem poluindo o Word de que você nunca ouviu falar. O Icaza já tentou nos convencer de que estaríamos ferrados se não tivéssemos certas tecnologias ("it's going to be increasingly hard for the rest of us to get there unless we have an implementation of an equivalent technology" - mais sobre isso aqui também) para depois de algum tempo ter uma idéia bem diferente das mesmas. Desperdício de recursos (tempo, pessoas, dinheiro) por causa de "visões estranhas" e vaporwares.

The cost of migration is not zero.

Mas ainda continua bem mais barato do que a outra opção, tanto falando de dinheiro como de dores de cabeça futuras.

The original submission to the ECMA TC45 working group did not have any of this information. Jody Goldberg and Michael Meeks that represented Novell at the TC45 requested the information and it eventually made it into the standards. I consider this a win, and I consider those 324 extra pages a win for everyone (almost half the size of the ODF standard). Depending on how you count, ODF has 4 to 10 pages devoted to it. There is no way you could build a spreadsheet software based on this specification.

Então os caras foram lá, requisitaram a informação, conseguiram 324 páginas. E realmente não dá para fazer nem a pau uma planilha com as 10 páginas de referência do ODF. Minha dúvida é: por que diabos não gastaram esse tempo com o ODF, melhorando a documentação, e acrescentando mais umas 300 páginas lá? Foram ajudar o "outro lado"? Desse jeito, o OOXML ficou com as 300 páginas e o ODF continua com as suas 10. Se está achando tão ruim assim, porque não dedicou esse tempo para ajudar com isso, já que dispunha dos recursos? Tudo bem que eles querem fazer praticamente uma "adaptação" do OpenOffice, mas ainda é um projeto só e seria muito interessante dividir os esforços ali. Agora, se vão fazer um fork mesmo aí a coisa muda de figura ...

There is a good case to be made for OOXML to be further fine-tuned before it becomes an ISO standard. But considering that Office 2007 has shipped, I doubt that any significant changes to the file format would be implemented in the short or medium term.

Ou seja, conformem-se, pessoas, o gigante está aí e vai enfiar esses "padrões" guela abaixo, vamos até dar uma mãozinha para eles.

Considering that ODF spent a year receiving public scrutiny and it has holes the size of the Gulf of Mexico ...

Para mim, aqui ele já começa a soar zombeteiro de um modo meio suspeito. Totalmente descessária e apelativa essa comparação.

We should be able to compete on technical grounds with Microsoft's offerings. Developers interested in bringing XAML/WPF can join the Mono project.

Ah, espertinho. Crie o problema e venda a solução. A dele. Serão os mesmos tipos de problemas como os citados acima que depois não se mostraram tão problemáticos assim?

Instead of trying to bury OOXML, which amounts to covering the sun with your finger.

Frase realista ou derrotista? Vocês decidem.

But it is a lot harder to actually improve OpenOffice.org.

É, o projeto já era, está engessado, congelou, não vai evoluir. Foi praticamente decretada a sentença de morte dele no parágrafo acima. Vamos ajudar o OOXML que o ODF não dá mais pé.

If everyone complaining about OOXML was actually hacking on improving OpenOffice.org ...

E se todos que tem condições de ajudar o ODF (e que aparentemente, tem afinidades com o projeto) parassem de puxar tanto o saco do OOXML e fazer propaganda disso ...

Bom, deu para sentir o drama. Aqui tem uma opinião técnica totalmente diferente do ponto de vista do Icaza:

Ao propor uma especificação desnecessariamente complexa, que afronta o bom senso e muitos padrões internacionais estabelecidos e que somente ela conseguiria implementar em sua totalidade, a Microsoft, mais uma vez, tenta preservar o seu modelo de negócios.

Eu concordo com o ponto de vista acima. O engraçado é que esse modelo de negócios é bem nocivo para o desenvolvedor e tem gente que continua apostando nele. Tá, tem algumas coisas que podem até seduzir a turma conforme o Shoes cita nesse post mas estava pensando em duas notícias que vi hoje: o relato de teste do Visual Basic 8 .NET no Linux e que a Microsoft não desenvolverá mais versões do Visual FoxPro (alguém conhece esse?).

No primeiro caso, concordo com algumas opiniões dadas nos comentários (nem comento mais nada pois não tenho mais saco): não era hora de matar de vez o VB, mesmo que seja em favor de alguma outra linguagem mais, digamos, moderna, mesmo da Microsoft? Não só por causa de alguma birra com a linguagem, mas mesmo de mercado profissional. Até que ponto os desenvolvedores vão continuar desenvolvendo nessa linguagem que pode ter o mesmo fim do Visual FoxPro citado na segunda notícia? O duro que agora ganham subsídios como essa "renovada" de ambiente e vão continuar do mesmo jeito.

Foi como comentaram em outro post sobre esse mesmo assunto: o pessoal não corre atrás de mais nada, mesmo depois de uma década e acabam como os "clippeiros" atualmente. Não desmerecendo o trabalho deles (os "clippeiros"), mas acabam com mercado e conhecimento limitado. Aí depois ficam chorando as pitangas como se a culpa fosse de tudo mundo menos deles.

Para finalizar, vou contar uma piadinha que li aqui:

Pergunta - Quantos engenheiros da Microsoft são necessários para se trocar uma lâmpada?
Resposta - Nenhum. Simplesmente se define Escuro™ como o novo padrão.

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